O Funil da morte das distribuidoras de energia

O funil da morte das distribuidoras de energia

Com fortes indicativos de transformação no mercado elétrico, utilities de energia terão que rever modelos de negócios para se adaptar as demandas da geração descentralizada, buscando novas fontes de receita e tecnologia.
Tempo de leitura: 5 min

O termo “funil da morte” refere-se a um fenômeno que ocorre no setor elétrico em decorrência da geração distribuída de energia. Com a crescente adoção de sistemas de geração de energia renovável, como painéis solares fotovoltaicos instalados em residências e empresas, as distribuidoras de energia enfrentam desafios significativos.

O impacto do Net Metering na gestão das distribuidoras de energia

Resolução da ANEEL 482/12 introduziu o Net Metering, um sistema de compensação de energia elétrica que permite que os consumidores instalem pequenos geradores em suas unidades consumidoras para reduzir o consumo de energia da rede. No entanto, a implementação em larga escala tem enfrentado resistências, especialmente das concessionárias de energia, que não estão preparadas para lidar com a geração distribuída, especialmente a geração distribuída por fontes fotovoltaicas (GDFV).

Essas resistências são motivadas pelo impacto crescente nas operações das redes elétricas, incluindo inversão de fluxo e flutuação de tensão, além dos custos crescentes de investimento na rede e a redução progressiva da receita das concessionárias. Além disso, a ANEEL está conduzindo a Audiência Pública 59/18 (tarifa binômia) e a Audiência Pública 1/19 (compensação), que têm um impacto direto no futuro da GDFV. 

Embora o Net Metering tenha sido liberado, atualmente existem questionamentos e preocupações por parte das concessionárias em relação à remuneração e ao uso de suas redes. No entanto, a penetração da geração distribuída por energia fotovoltaica é uma tendência irreversível a nível mundial, impulsionada pela busca por maior autonomia dos consumidores em relação à energia elétrica.

Funil da morte e a geração distribuída

Funil da morte e a geração distribuída

No mais, a ANEEL conduziu a AP 59/18 (tarifa binômia) e a AP 1/19 (compensação) que são importantes, mas representam um bloqueio aos investimentos (neste ano 2,2 bi) em GDFV. Mesmo neste cenário, a ABSOLAR publicou que haverá um investimento de 1,1 bi em geração distribuída.

Os impactos do funil da morte: a necessidade de adaptação e novas oportunidades

As distribuidoras enfrentam o desafio de se adaptar à geração distribuída (GD), que causa receio de queda de receita e demanda investimentos para acomodar o fluxo intermitente na rede. Diante desse cenário, surge a questão: as distribuidoras irão buscar maneiras de impedir a GD ou se prepararão tecnica e economicamente para o futuro do setor?

Nesse contexto de transformação, surgem oportunidades na área de mobilidade elétrica e na prestação de serviços auxiliares para novos agentes do mercado. As concessionárias possuem uma posição privilegiada com relação ao consumo de energia de seus clientes e ao suprimento de insumos. Elas podem se envolver ativamente na instalação e disponibilização de sistemas fotovoltaicos e baterias para os consumidores, com controle personalizado, além de alimentar pontos de recarga para veículos elétricos.

Embora isso resulte em perda de receita relacionada aos ativos imobilizados, há ganhos com os serviços associados, visando ao aumento da lucratividade. No entanto, ainda falta um conjunto de otimização, softwares, operações associadas e equipamentos homologados para viabilizar uma rede com ampla penetração da GD e aproveitar plenamente essa tendência.

Uma oportunidade clara é a criação de múltiplos microgrids, nos quais a geração, o consumo, o armazenamento e o controle ocorrem localmente, alternando com a estrutura de alimentação típica do sistema de distribuição. Isso envolve a formação de um sistema composto por um grupo de recursos energéticos distribuídos e cargas interconectadas, com limites elétricos claramente definidos, atuando como uma entidade controlável única em relação à rede. Essa abordagem possibilita maior flexibilidade operacional e maior resiliência do sistema elétrico, além de facilitar a integração de fontes renováveis e promover a autossuficiência energética em comunidades específicas.

Essas transformações requerem uma visão estratégica das distribuidoras, que precisam se adaptar ao novo contexto, buscar parcerias e investir em tecnologias e soluções inovadoras. 

O desenvolvimento de plataformas digitais para monitoramento e controle dos ativos distribuídos, a implementação de sistemas de gestão avançados e o uso de algoritmos de inteligência artificial são alguns exemplos de abordagens que podem ser adotadas para enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades apresentadas pela geração distribuída.

Ao se prepararem para o futuro do setor elétrico, as distribuidoras poderão não apenas sobreviver às mudanças, mas também prosperar e oferecer um serviço de qualidade aos consumidores.

As tendências atuais para sistemas elétricos de potência são o aumento nos níveis de DERs, armazenamento de energia, programas de controle de demanda além de iniciativas de eficiência energética. 

No curto prazo, operadores do sistema devem fazer o seu melhor para prever a produção da geração renovável intermitente, assim como a demanda. 

No longo prazo, projetar a capacidade desses recursos será uma tarefa complexa devido ao rápido declínio no custo das tecnologias, além da pressão política da sociedade por incentivos para elas.

Transactive Energy: solução para o futuro da distribuição?

O desenvolvimento da Transactive Energy (TE) tem como propósito estabelecer uma ligação dinâmica entre oferta e demanda no sistema elétrico, por meio da resposta de cargas elétricas e geração no lado do consumidor, em resposta aos sinais de preços. 

O uso da TE busca oferecer uma solução para os desafios crescentes relacionados à eficiência e confiabilidade do sistema elétrico, decorrentes da rápida adoção de novas tecnologias, tanto por parte dos consumidores quanto dos geradores.

Essa abordagem inovadora permite uma gestão mais inteligente e eficiente da energia, possibilitando a otimização do consumo, a redução de custos e a integração harmoniosa de fontes de energia renovável no sistema elétrico. Ao promover a interação ativa entre os agentes envolvidos na geração e consumo de energia, a TE contribui para a construção de um sistema energético mais resiliente e sustentável.

Funil da morte e energia renovável em residências e empresas

Funil da morte e energia renovável em residências e empresas

Além disto, a inserção da mobilidade elétrica tende a trazer uma nova visão para o setor através do controle de eletropostos que além de carregamento de veículos elétricos podem fornecer confiabilidade adicional para a rede. 

Por fim, criar ferramentas que definam a Tarifa em função de localização, capacidade e hora de utilização. Além da adoção do sinal econômico para interfacear automatização residencial, GD e rede MT/BT buscando eficiência energética e econômica, garantindo o fluxo financeiro para o setor.

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Sobre o autor:

Guilherme Ferraz

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